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Descrição de imagem: Foto de um auditório. Perla, representante da Rede de Leitura, está em pé, à esquerda de uma mesa comprida, com uma toalha branca, e fala ao microfone. Em cima da mesa, há duas corujas de pelúcia cinzentas e dois bois, um preto e um branco. À frente da mesa, há um arranjo floral. No fundo do palco, há a projeção do logo da Rede de Leitura Inclusiva e, abaixo, em letras pretas: “Rede Nacional de Leitura Inclusiva”.

MEMBROS DA REDE NACIONAL DE LEITURA INCLUSIVA SE ENCONTRAM NA NONA EDIÇÃO DO SENABRAILLE

Qual o papel do bibliotecário na sociedade? Essa é a pergunta que impulsiona a atuação de Adriana Ferrari, presidente da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (FEBAB), inclusive no ativismo pelo acesso à leitura. A mesma pergunta que a inspirou, por exemplo, a idealizar e coordenar o projeto da Biblioteca de São Paulo, que abre em finais de semana e feriados.

“Quando falamos na leitura para todos, além de um acervo gratuito e em formatos acessíveis temos de pensar nas condições de deslocamento do público até esse material.”, diz a bibliotecária. Foi com naturalidade, portanto, que Adriana esteve à frente da nona edição do Seminário Nacional de Bibliotecas Braille (SENABRAILLE), promovido pela FEBAB nos dias 12 e 13 de julho, em Florianópolis, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Iniciado em 1995, o SENABRAILLE busca a troca de experiências e a apresentação de projetos de bibliotecários e educadores, com ênfase no atendimento a pessoas com deficiência visual. Segundo Adriana, o evento conseguiu ser mais abrangente do que em edições anteriores. “Em termos de conteúdo, o encontro correspondeu às expectativas, com apresentações e discussões inspiradoras e sobre deficiências distintas, além da visual.”, afirma a bibliotecária.

Uma das apresentações do seminário foi de uma das representantes da Rede Nacional de Leitura Inclusiva da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que falou das ações realizadas em parceria com os Grupos de Trabalho (GT’s) de diferentes regiões do país. Representantes dos GT’s também marcaram presença e confraternizaram em um espaço paralelo ao evento. “A reunião dos GT’s permitiu não apenas um primeiro contato presencial entre os integrantes, mas, também, que eles compartilhassem as realidades vivenciadas por cada um em seus espaços de atuação.”, explica Perla Assunção, que apresentou a Rede de Leitura durante o SENABRAILLE.

Descrição de imagem: Cerca de dez pessoas estão de pé, em roda em um parque. Elas sorriem e conversam.

Um desses integrantes é o pedagogo com deficiência visual José Carlos, o mais novo membro da Rede. Presidente do Conselho Escolar do Centro de Educação de Jovens e Adultos de Florianópolis e dono do primeiro cão guia do Estado de Santa Catarina, em 1997, Carlos sabe da importância do trabalho conjunto pela inclusão e pelo acesso à leitura.

“Fico honrado em integrar a Rede de Leitura. Acredito que uma causa como a nossa precisa dessa articulação a nível nacional, mas que, ao mesmo tempo, fortalece cada membro em sua região.”, declara.

Descrição de imagem: Banner em fundo azul. À direita, em destaque, ilustração de um smile amarelo com óculos pretos e o logo Daisy. À esquerda, em letras brancas e amarelas, há o seguinte texto: “Oficina A leitura inclusiva e o livro digital acessível Daisy”.

A HISTÓRIA DE UMA JORNADA PELO ACESSO À LEITURA

Graças ao projeto Leitura Digital Acessível, realizado pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura e Fundação Dorina Nowill para Cegos, com patrocínio da White Martins e Fox Conn, a Rede Nacional de Leitura Inclusiva pôde escrever mais este importante capítulo na história da busca por um mundo cada vez mais inclusivo – o grande ideal de nossa presidente emérita e vitalícia, Dorina de Gouvêa Nowill.

Visando ampliar o acervo acessível de bibliotecas e escolas públicas do Estado de São Paulo, o projeto permitiu a produção e distribuição de mil kits com 12 obras – 3 títulos infantis, 3 infanto-juvenis, 3 Best-sellers e 3 histórias em quadrinhos – no formato Daisy, totalizando 12 mil livros. As obras nesse formato digital tornam possível o acesso da pessoa com deficiência visual – cega e com baixa visão – a materiais compostos não apenas por textos, mas, também, por imagens, gráficos, tabelas, já que permitem a inserção de recursos de apoio, como descrições de imagens e de arquivos de áudio, além de contar com opções de ampliação e contraste da letra.

E para que esse material seja devidamente apreciado por muitos leitores, representantes da Rede de Leitura realizaram oficinas gratuitas de capacitação em 10 cidades do Estado de São Paulo, destinadas, principalmente, a bibliotecários e educadores da rede pública, mas abertas a todos. Além de propor uma sensibilização sobre a importância do acesso à leitura e da inclusão social, as oficinas permitiram a interação dos participantes com o kit de livros acessíveis e com o programa de leitura digital desenvolvido pela Fundação Dorina para o formato Daisy, o DDReader, disponível para computadores e smartphones. A resposta do público ultrapassou as expectativas, já que alguns encontros também contaram com participantes de cidades próximas. Com isso, foram 35 municípios beneficiados.

Segundo Angelita Garcia, uma das representantes da Rede de Leitura, as oficinas demonstraram a importância da capacitação a profissionais realmente interessados na leitura acessível e na causa da inclusão. “Levando-se em conta, por exemplo, o número de pessoas com deficiência visual que não aprenderam o sistema de leitura e escrita Braille, um projeto como esse possibilita um acesso mais democrático aos livros e o público das oficinas ficou motivado a se apropriar do DDReader, tanto para uso próprio quanto para disseminar esse recurso em seus espaços de atuação”, afirma.

Para divulgar o projeto, as representantes da Rede de Leitura também visitaram quatro organizações que atendem pessoas com deficiência visual: o Lar das Moças Cegas, de Santos; o Instituto de Cegos, de Presidente Prudente; a Para-DV, de Araraquara; e a Fundação do Livro, em Ribeirão Preto. Essas interações geraram importantes desdobramentos para a Rede, como convites para integrar eventos e desenvolver novas ações em prol da leitura inclusiva. Podemos dizer, portanto, que esta jornada pelo acesso ao conhecimento foi um grande processo e, ao que tudo indica, foi só mais um capítulo de muitos que estão por vir.

Descrição de imagem: Foto de um grupo de sete pessoas na entrada da Fundação Dorina. Ao fundo, está um quadro de D.Dorina em preto e branco. À esquerda do quadro, está um homem de óculos escuros e com uma bengala verde, e uma mulher de roupas pretas. À direita do quadro, estão outras cinco mulheres. Todos sorriem.

Visita à Fundação Dorina

Um dos desdobramentos das oficinas foi uma visita realizada ao Centro de Memória da Fundação Dorina Nowill para Cegos a partir da oficina em Bragança Paulista. A visita foi uma iniciativa de uma das participantes do encontro, a militante pelos direitos da pessoa com deficiência visual Eliana Hashimoto, em parceria com a Fundação Dorina. Além da família, Eliana trouxe consigo integrantes do Movimento Bengala Verde e a pedagoga com deficiência auditiva parcial Alessandra da Costa, que integra o Conselho de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência (CONDEFI).

Para Eliana, ela própria uma pessoa com deficiência visual total, interagir com o registro histórico da Fundação Dorina foi uma experiência gratificante. “Tive contato com a Fundação há uns 15 anos e conheci Dorina Nowill pessoalmente. Por isso, relembrar o legado que ela deixou e presenciar a continuidade dele, inclusive no âmbito da leitura acessível, não tem preço”, afirma.

Já Alessandra enfatizou o significado que a visita teve para ela enquanto educadora. “A inclusão é um direito e, ao mesmo tempo, um dever de todos nós, e ao viajar pela história da Fundação, bem como da mulher que a idealizou, me senti ainda mais inspirada a compartilhar conhecimentos com quaisquer pessoas dispostas a crescer”, declara a pedagoga.

Descrição de imagem: Foto de uma mulher acessando a Dorinateca. Ela está de costas, tem cabelos grisalhos, usa camisa branca e fones de ouvido, e segura um tablet que mostra a página inicial da Dorinateca.

Portal Dorinateca

Se você é uma pessoa com deficiência visual, escola, biblioteca ou associação que busca a leitura acessível e o conhecimento que ela pode gerar, confira o portal de leitura da Fundação Dorina, o Dorinateca, que disponibiliza títulos para download gratuito nos formatos Daisy, audiolivro e para impressão em Braille. Se atende ao público do portal, basta criar sua conta e aproveitar a leitura!

Descrição de imagem: Na foto, 10 participantes do evento estão sentados em roda na Biblioteca Maria Firmina dos Reis. Uma delas fala ao microfone. A sala é espaçosa e cercada por janelas de vidro. Ao fundo, há uma grande árvore de madeira representando um Baobá, com almofadas coloridas em volta.

BIBLIOTECA MARIA FIRMINA DOS REIS INAUGURA ACERVO ACESSÍVEL

Casinhas acolchoadas e uma grande árvore baobá esculpida em madeira, típica do continente africano, embaixo da qual, tradicionalmente, os mestres griôs sentam para contar histórias. Estes elementos se destacam na ambientação da Biblioteca Maria Firmina dos Reis, que fica em Cidade Tiradentes, na capital paulista, uma região marcada pela luta histórica por habitação – abriga o maior complexo de conjuntos da América Latina, beirando a 40 mil unidades – e é composta por uma população predominantemente negra e nordestina.

Foi mantendo a decoração simbólica que, no dia 29 de junho, a biblioteca comemorou mais uma conquista para a comunidade, com a inauguração de um acervo acessível de livros em Braille e em fonte ampliada para pessoas com deficiência visual. O material foi doado pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, que enviou uma representante da Rede de Leitura Inclusiva e um de seus comunicadores ao evento.

Parte do público beneficiado pelo acervo frequenta o Centro Especializado em Reabilitação (CER, II Guaianases) – que atende pessoas com deficiência visual e auditiva – e constituiu a maioria dos participantes da inauguração. Também foram eles os organizadores de um Sarau Acessível para a ocasião, que incluiu a leitura em Braille e a declamação de poemas, bem como apresentações de dança e música ao som da Escaleta de dona Iolanda, com modas típicas do folclore nordestino, como a clássica Asa Branca. Durante todo o espetáculo e mesmo no bate-papo que se seguiu, era palpável a alegria e o contentamento daquela gente com histórias tão adversas, de luta e superação.

Descrição de imagem: Um grupo de seis pessoas, dois homens e quatro mulheres, está em pé, em roda, e de mãos dadas. As mulheres usam saia azul em tecido brilhante, camisa preta e chapéus pequenos na cabeça. Os homens usam colete no mesmo tom de azul e calça preta. Eles seguram lenços nas cores azul e branco. Ao fundo, está uma grande árvore de madeira, representando um Baobá.

Histórias como a de José Nascimento, o Seu Zeca, que a todo instante vibrava e aplaudia os presentes com grande entusiasmo. Seu Zeca possui deficiência auditiva parcial e, no dia do evento, esqueceu de levar o aparelho auditivo, o que não o impediu de acompanhar as apresentações e falas dos outros convidados. Há 10 anos, ele migrou do nordeste para a capital paulista junto da irmã, que possui deficiência visual, em busca de melhores condições de vida. “A união faz a força!”, reafirmou durante sua fala no bate-papo, referindo-se à troca de conhecimentos entre os frequentadores do CER. “Quem sabe o Braille ajuda a ensinar quem ainda não sabe, e o mesmo vale para outras atividades, como o crochê e a música”, explica Seu Zeca.

Para a coordenadora da Biblioteca, Charlene Lemos, o evento representa um passo fundamental para um espaço público de acesso à informação e à cultura. “Nosso objetivo é atender a todos os públicos. Sabemos que ainda existem desafios pela frente, mas, com a inauguração desse acervo, começamos a suprir uma importante demanda local”. Charlene cresceu nas imediações do espaço e relembra que, em 2017, recebeu pela primeira vez uma visita dos alunos do CER. “Iniciamos um programa de cultura quinzenal com o grupo, mas não tínhamos livros com acessibilidade. Foi então que entrei em contato com a Fundação Dorina e expus a situação para a Rede de Leitura Inclusiva. É gratificante presenciar o resultado dessa parceria!”, afirma Charlene.

Descrição de imagem: Foto de seis participantes do evento. Eles estão sentados em roda. Ao centro, Seu Zeca fala ao microfone e, à esquerda, outro participante lê um livro Braille. No fundo da sala, há alguns livros dispostos em prateleiras.

Juntos pela inclusão

Para um aprendizado em equipe, os frequentadores do CER contam com suportes como o da fisioterapeuta Aretuza Farias Leao. Em 2005, Aretuza teve o seu primeiro contato com pessoas com deficiência visual ao trabalhar na companhia de bailarinas cegas da professora Fernanda Bianchini. A partir dessa experiência, participou também de um curso de Orientação e Mobilidade, que visa a locomoção autônoma da pessoa com deficiência visual, e, em 2015, recebeu um convite para integrar a equipe do CER.

“Além da Orientação e Mobilidade, trabalho com eles a socialização por meio da dança”, conta a fisioterapeuta. Durante as aulas, ela relata que os alunos a apresentaram ao sistema Braille e perguntaram se ela não gostaria de aprendê-lo. “O CER tem um acervo de livros e cartilhas de saúde, mas todos estão em tinta. Percebi que, se aprendesse o Braille, poderia ajudar a transcrever esse material para um formato acessível”. Com esse objetivo em mente, professora e alunos planejam montar um grupo de capacitação em Braille.

“Só tenho obtido ganhos com essa experiência, seja como ser humano, aprendendo a lidar com sentimentos e expectativas, ou como profissional, ampliando meus conhecimentos e percepção corporal”, afirma a professora.

Descrição de imagem: Foto aérea de cerca de 20 pessoas. Elas estão sentadas em cadeiras formando um semicírculo. Célia, da Rede de Leitura, está em pé a frente do grupo. Atrás dela, há a projeção de uma imagem em fundo azul, com o smile da Fundação Dorina à direita e a frase, em letras amarelas, à esquerda: ‘A leitura inclusiva e o livro digital acessível Daisy’.

DA ESCOLA À BIBLIOTECA

Essa era uma rota percorrida diariamente por Eliana Hashimoto, 46, durante a infância. De Agatha Christie a Sherlock Holmes, devorava um livro policial atrás do outro. “Eram meus preferidos. Na época, livros também eram muito baratos e vendidos nas bancas de jornal. Eu comprava todos”, relembra ela.

Natural da cidade de Cajati, Eliana dedicou-se à enfermagem até os 29 anos de idade, quando foi afastada da profissão devido a um diagnóstico de retinose pigmentar. Sua visão foi diminuindo aos poucos, até estacionar. Foi assim que ela passou a se enquadrar entre os cerca de 6 milhões de brasileiros com baixa visão. Mesmo aposentada, porém, Eliana seguiu mais ativa do que nunca, sempre envolvida em ações de militância pela inclusão da pessoa com alguma deficiência – incluindo a visual. Tampouco abandonou o contato com os livros.

Ela conta que, de início, a leitura se tornou um problema. “Consigo identificar letras grandes, mas elas não são mais como antigamente, têm muitos detalhes e depois de algumas páginas fico bem cansada”, explica. A solução apareceu quando Eliana, por meio da Associação Beneficente São Lucas, descobriu o audiolivro ou livro falado, com um acervo que incluía títulos produzidos pela Fundação Dorina Nowill para Cegos. “De início, achei difícil me concentrar nas histórias apenas ouvindo, mas fui me acostumando e hoje escuto um depois do outro”, afirma.

Foi por isso que, ao saber da oficina sobre leitura digital acessível que a Rede de Leitura Inclusiva da Fundação Dorina promoveria na cidade de Bragança Paulista, em 15 de junho, com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo, Eliana não deixou de comparecer. Chamou a atenção da leitora o predomínio de educadores presentes no evento, bem como a apresentação do programa de leitura acessível criado pela Fundação Dorina, o DDReader. “Acredito que a oficina foi destinada ao público certo. Além do debate sobre o acesso à leitura para todos, penso que o DDReader supre uma demanda de estudantes com deficiência visual, que precisam marcar e buscar trechos de textos longos, recursos que ainda não encontramos de forma tão acessível em programas tradicionais”, observa ela.

Descrição de imagem: Foto de uma sala retangular com cerca de vinte pessoas. Elas estão divididas em grupos de cinco a seis membros e conversam entre si. Ao fundo, há uma projeção com a imagem do blog da Rede de Leitura Inclusiva.

Um dos educadores presentes à oficina foi a pedagoga Cecilia Jorge, 59, que atende alunos com deficiência visual na Associação São Lucas e foi quem convidou Eliana para o encontro. Cecilia, que também atua com outras deficiências na Rede Municipal, trabalha desde Orientação e Mobilidade com seus alunos, que visa a locomoção independente da pessoa com deficiência visual, até o ensino do sistema Braille e o estímulo de quem tem baixa visão. “É importante que o aluno com alguma parcela de visão aprenda como utilizá-la da melhor forma possível. No caso da leitura, geralmente começamos com letras maiores e, aos poucos, vamos reduzindo, de modo que a pessoa se adapte ao tamanho que realmente é ideal para ela”, explica a pedagoga.

Cecilia recebeu um convite da Secretaria de Cultura para a oficina em Bragança Paulista. Ela ainda não conhecia o DDReader e está animada para explorar as ferramentas do programa com os alunos. “Não é só a pessoa com deficiência visual total que ainda sofre com a falta de livros acessíveis. Quem tem baixa visão também enfrenta dificuldade para acessar títulos em condições ideais de leitura, mesmo na era digital, e o DDReader vai de encontro à essa demanda com as opções de ampliação e contraste da letra”, declara a pedagoga.

Descrição de imagem: Foto de 18 pessoas em uma sala. Elas estão em pé e sorriem. Ao fundo, estão duas janelas grandes e uma escada em caracol.

Nova página

“A leitura sempre fez parte da minha vida, minha casa é cheia de livros. Também sempre incentivei minha filha Carina a ler e hoje ela escreve textos dos mais diversos gêneros”

O depoimento é da também pedagoga Alessandra da Costa, 38. Alessandra nasceu com deficiência auditiva unilateral e já atendeu de alunos surdos a estudantes com deficiência visual e intelectual pela Rede Municipal de Cajati. A vida profissional da educadora iniciou em 1999, mas ela parou de estudar. “Emendei uma pós-graduação e curso atrás do outro, inclusive no segmento da educação especial”, conta.

Em 2011, Alessandra assumiu a coordenação pedagógica de uma das maiores escolas do município, sempre buscando uma educação inclusiva junto aos professores e familiares. Em 2015, retornou à sala de aula, mas no mesmo ano, recebeu a notícia de que deveria abandonar o posto devido ao agravo de sua deficiência auditiva. O episódio, porém, não refreou Alessandra. “Iniciei uma nova página. Recebi um convite do Departamento de Educação para mediar a inclusão de alunos com deficiência em toda a Rede Municipal”, relata a pedagoga.

Apesar de se comunicar pela Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), Alessandra não precisou de um intérprete durante a oficina em Bragança Paulista, já que ainda possui um resquício auditivo. Quanto à experiência de debater sobre leitura acessível e de interagir com recursos em prol dessa causa, não apenas enquanto uma pessoa com deficiência, mas, também, como educadora de alunos cegos e com baixa visão, Alessandra afirma: “O verdadeiro conhecimento é aquele que se compartilha e é usado para melhorar a vida das pessoas”.

 

Dorinateca

Se você é uma pessoa com deficiência visual, escola, biblioteca ou associação que busca a leitura acessível e o conhecimento que ela pode gerar, confira o portal de leitura da Fundação Dorina, o Dorinateca, que disponibiliza um acervo para download gratuito nos formatos Daisy, audiolivro e para impressão em Braille – incluindo os 12 títulos do projeto Leitura Digital Acessível. Se atende ao público do portal, basta criar sua conta e aproveitar a leitura!

Descrição de imagem: Foto de uma sala com cerca de 20 pessoas sentadas em roda. Célia está em pé, no centro da roda e conversa com a turma. A sala tem paredes vermelhas e pé direito alto.

DE UM CASTELO MEDIEVAL À MOGI-MIRIM: CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTICIPA DE OFICINA SOBRE LEITURA ACESSÍVEL

História e arte povoam o cotidiano do pedagogo Almir Rogério Ferraz, 35. Ele é Coordenador Pedagógico na Escola Estação Municipal de Apoio ao Atendimento Integral à Criança (EMAIC), pela Rede Municipal de Pirassununga. A escola desenvolve atividades recreativas e lúdicas para alunos da Rede, como teatro, dança e contação de histórias.

Um dos atrativos da Estação é o EMAIC-Castelinho, construção de 80 anos que imita um castelo medieval. É nesse ambiente que Ferraz também desempenha sua formação como ator. “Adoro a relação humana que a educação envolve e um bom exemplo disso é interpretar a leitura de uma história”, declara o pedagogo.

Foi essa relação com os livros que levou Ferraz até a oficina sobre Leitura Digital Acessível, promovida pela Rede de Leitura da Fundação Dorina Nowill para Cegos, em parceria com a Secretaria de Educação de Mogi-Mirim, cidade localizada a 87 quilômetros de Pirassununga. O ator conta que, além de interagir pela primeira vez com um livro acessível por meio do programa de leitura da Fundação Dorina, o DDReader, pôde debater sobre o acesso à informação e à cultura com pessoas inseridas em realidades profissionais distintas. “O público predominante na oficina era de educadores, cada um com as próprias ideias, vivências e dúvidas, mas também tivemos a presença de um produtor cultural, que agregou muito para a conversa com o seu ponto de vista.”, explica Ferraz.

Descrição de imagem: Cerca de vinte pessoas posam sorrindo para a foto. Algumas estão em pé e outras agachadas à frente.

O produtor cultural ao qual o pedagogo se refere é Lucas Silveira Delfino, 28. Natural de Pirassununga, aos 18 anos Delfino mudou-se para a capital paulista afim de cursar publicidade. Em paralelo, dedicava-se à sua paixão desde a infância: o teatro musical. “Eu fazia cursos livres e assim fui acumulando bagagem. Em 2009, a escola de teatro onde eu estava resolveu abrir uma produtora e foi assim que iniciei minha profissão atual”, relata ele.

Delfino retornou à cidade natal, onde, além de atuar como produtor, dedica-se à contação de histórias para crianças, como Ferraz. Foi um convite do pedagogo, aliás, que também levou Delfino à oficina da Rede de Leitura Inclusiva. Mesmo adepto da interpretação oral na contação de histórias, o ator destacou a importância de outros formatos além do audiolivro. “Ouvir uma história não tem preço, mas uma criança ou adulto com deficiência visual tem o direito de ler um livro sem uma interferência externa. Também adorei o livro no formato tinta-braille, porque além de alfabetizar ele aproxima crianças videntes e cegas”, observa Delfino, e acrescenta: “Leis como a LBI são louváveis para a acessibilidade, mas sempre existiram pessoas diferentes umas das outras, então só lamento que a inclusão ainda não seja um processo natural”.

Leitura inclusiva

Seja você uma pessoa com deficiência visual adepta do livro digital, em Braille ou do audiolivro, confira o portal de leitura da Fundação Dorina, o Dorinateca. Além de contemplar pessoas com deficiência visual, o espaço também é voltado a escolas, bibliotecas e associações, possibilitando até mesmo o download de obras para impressão em Braille. O acervo inclui os 12 títulos em formato Daisy que compõe o kit do projeto Leitura Digital Acessível. Então, se pertence ao público-alvo do portal e ainda não tem seu cadastro, crie uma conta e aproveite a leitura!

HISTÓRIAS DE INCLUSÃO SE ENCONTRAM NA 45ª FEIRA DO LIVRO DE SANTA MARIA

Seja em um filme, nas poucas linhas de um blog, jornal, revista ou mesmo ao longo das páginas de um livro, encontramos recortes narrativos da vida de alguém, de um certo episódio ou evento histórico, visando o que há de mais importante a ser dito.

No caso deste texto, por exemplo, poderíamos dizer que o encontro das histórias do pedagogo com deficiência visual total, Cristian Sehnem, 42, e da Fundação Dorina Nowill para Cegos começou na ação da Rede de Leitura Inclusiva realizada no dia 8 de maio, com o apoio do Grupo de Leitura Inclusiva RS/Centro, durante a 45ª Feira do Livro de Santa Maria. A verdade, porém, é que uma história passou a fazer parte da outra ainda em 2001, quando Sehnem começou a trabalhar na Biblioteca Central da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), cidade onde residia na época.

“Eu era responsável pelo acervo acessível, grande parte fornecido pela Fundação Dorina. Foi quando passei a conhecer e me aprofundar na leitura inclusiva”, lembra o educador. Em 2015, já atuando no Núcleo de Acessibilidade da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Sehnem participou de um seminário na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), durante o qual foi integrado a Rede de Leitura da Fundação Dorina e ajudou a articular o Grupo de Leitura na região de Santa Maria. “Desde então, fazemos pelo menos dois eventos de leitura inclusiva por ano aqui e, com ações como a realizada na Feira do Livro, a ideia é mostrar que a limitação não está nas pessoas com deficiências como a visual, mas, sim, no meio social”, explica o pedagogo.Descrição de imagem: Foto de uma mesa com dois livros infantis em tinta-braile. O livro no centro da mesa tem o desenho de um menino com boné e o título, em amarelo: "O grande dia”. À direita, está o livro “Cavalinho de Balanço”, que tem fundo azul e a ilustração de duas crianças em um cavalo de madeira. Na mesa, há ainda uma máquina Braille, duas lupas e uma prancheta com uma folha em branco, em cima da qual há uma reglete e uma punção.

A ação na Feira incluiu uma série de atividades, como contação de histórias em formato acessível para crianças da Rede Municipal, uma exposição de equipamentos e materiais para acessibilidade (máquina Braille, lupa, sorobã, notebook com softwares para escrita e leitura, entre outros) e uma roda de conversa entre leitores com deficiência visual. Segundo uma das representantes da Rede de Leitura Inclusiva, Angelita Garcia, no ano anterior a ação foi realizada em um espaço paralelo ao da Feira. “Instiguei nossos parceiros em Santa Maria a investir em um passo além, para que pudéssemos falar da importância do acesso à leitura inclusiva no próprio evento e, este ano, eles conseguiram.”, diz Angelita.

Escrevendo a própria história

Não existem leitores sem escritores. Por sorte, existem pessoas como a também educadora Maria Esther Gomes de Souza, 45, que não deixa o mundo ficar sem boas histórias, incluindo a dela própria. Parceira do Grupo de Leitura na Secretaria Estadual de Educação, Maria é escritora e tem deficiência auditiva adquirida (surdez parcial).

Em 1991, ela formou-se em Magistério de 1º a 5º ano e em Educação Especial em 1997. Desde então, trabalhou sempre com essa especialização na Rede Pública e em abrigo de menores. Também foi voluntária na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) por 20 anos. Só que, ao optar por esse caminho profissional, não havia adquirido a surdez. “Sempre gostei de interagir com surdos e tenho um primo na mesma condição que, na época, me motivou a procurar a formação. Quem diria!”, declara. Maria é autora de três livros: um sobre Educação Especial, outro de poesias e crônicas e de uma novela – um quarto está em produção.

Para a escritora, ações como a da Feira representam uma oportunidade única. “Podemos trocar experiências e, acima de tudo, falar por nós mesmos, em vez de sermos representados por quem desconhece nossa realidade”, afirma Maria.

Descrição de imagem: Dois homens utilizam o DDReader em um aparelho celular. Os dois estão sentados um ao lado do outro.

OS LIVROS NÃO INCLUEM O MUNDO, QUEM INCLUI O MUNDO E OS LIVROS SÃO AS PESSOAS

Essa adaptação da famosa máxima do poeta Mário Quintana bem poderia ser de autoria da pedagoga Milena Bertoni Romera, 40, levando-se em conta o sentido que o termo “inclusão” possui para a educadora. Há 13 anos, Milena presta atendimento pedagógico especializado a crianças e adolescentes com deficiência visual associada ou não a outras deficiências, no Centro de Reabilitação Visual (CRV) de São José do Rio Preto, preparando os alunos para frequentar uma escola regular.

“Existem escolas que acreditam que inclusão se resume a aprender a ler e a escrever, mas esquecem de estimular a autonomia e as relações interpessoais”, afirma a pedagoga. Milena já é parceira anual da Rede de Leitura da Fundação Dorina Nowill para Cegos e apoiou a oficina A Leitura Inclusiva e o Livro Digital Acessível Daisy, realizada na sede do CRV em 25 de maio. Ela acredita que programas como o DDReader, desenvolvido pela Fundação Dorina e apresentado na oficina, representam, justamente, o respeito à adversidade. “Ainda que o Braille seja indispensável para a alfabetização de crianças com deficiência visual, existe aquele público que perdeu a visão total ou parcialmente ao longo da vida e que precisa de formas alternativas de acesso à leitura. Além disso, comercialmente falando e também pensando no contexto universitário, o livro digital ou mesmo o audiolivro é mais viável do que o Braille”, explica.

Descrição de imagem: Milena está ao lado de dois rapazes. Eles estão em pé. Milena segura um microfone, enquanto o vocalista da banda A Visão do Coração aponta um celular para um livro. O terceiro rapaz segura o livro abaixo do celular. Ao fundo, estão diversos armários de parede.Adversidade também é uma palavra comum ao cotidiano da pedagoga Sirlei Maria Montes, 52. Ao contrário de Milena, porém, Sirlei é uma pessoa com deficiência visual total, em decorrência de um descolamento de retina, aos 14 anos de idade. Inspirada pela educadora Tânia Resende, resolveu dedicar a vida a ensinar pessoas em condição visual idêntica ou semelhante. Há 22 anos, ela atua tanto na rede estadual, prestando atendimento a crianças e jovens com deficiência visual em uma sala de recursos (atividade complementar ao ensino regular), quanto em âmbito acadêmico, lecionando pedagogia em duas faculdades.

Enquanto educadora, Sirlei trabalha com múltiplas ferramentas para ajudar o aluno e desempenhar sua função com maior praticidade. Além do Braille, a pedagoga instrui os estudantes no uso do sorobã, um tipo de ábaco muito útil a pessoas com deficiência visual para cálculos matemáticos, e recorre ao computador tanto no caso de crianças ou jovens com baixa visão como para fazer anotações. Após interagir com o DDReader durante a oficina, Sirlei destaca que o programa é mais um agregador de possibilidades, já que contempla o público cego e com baixa visão simultaneamente. “Ser uma professora com deficiência visual é um desafio constante, porque o preconceito social ainda é grande e, a todo o instante, você tem que provar sua capacidade. Todo ser humano tem potencialidades e limitações e só precisa de um investimento nas suas competências.”, declara a educadora.

Uma história real

Descrição de imagem: Cinco homens estão sentados em semicírculo e tocam diferentes instrumentos. Na ponta esquerda, um rapaz toca um surdo, seguido por um senhor que toca um tantan; ao lado dele, está um homem tocando pandeiro; no centro, está o vocalista, que toca um ganzá e segura um tamborim; e ao lado dele está outro cantor tocando guitarra. Ao fundo, há uma caixa de som.

Além de contemplar a diversidade, as tecnologias também inspiram pessoas a apresentar novas ideias, inclusive em prol da leitura acessível, e foi o que aconteceu durante a oficina. Trata-se de uma iniciativa conjunta do músico com deficiência visual Rodrigo Rocha, do químico ambiental Gustavo Prione e do primo deste, o analista de sistemas Hugo Prione.

Tudo começou com Rodrigo. Ele é membro do grupo musical de Samba Rock “A Visão do Coração”, que abriu a oficina com uma apresentação. Rodrigo tem um filho pequeno. Certo dia, Gustavo, amigo de Rodrigo, foi visitá-lo e presenciou o rapaz contando uma história para a criança, ao mesmo tempo que, de vez em quando, virava uma das páginas de um livro infantil. Descobriu, então, que o amigo inventava a história para o garoto, fingindo que a lia.

Hoje, porém, Rodrigo pode realmente ler a história do livro para o filho, graças ao projeto BRCode – assim batizado pelo trio em homenagem ao sistema Braille. Trata-se de uma plataforma para celular que opera a partir de um QRCode, que pode ser inserido em um espaço com cerca de um centímetro da página de um livro. Basta tocar a tela do aparelho no QRCode e o conteúdo da página em questão será lido pelo dispositivo para a pessoa com deficiência visual.

“A ideia é que o sistema permita o consumo de um mesmo produto tanto por pessoas videntes quanto pelo público com deficiência visual, além de não onerar tanto as editoras em termos de custos”, explica Gustavo. Atualmente, o trio está em busca de parcerias para aprimorar e, eventualmente, lançar a plataforma em caráter oficial.

Lembramos que os 12 títulos em formato acessível Daisy que compõem o kit apresentado na oficina, pelo projeto Leitura Digital Acessível, estão disponíveis no portal de livros da Fundação Dorina, o Dorinateca, voltado a pessoas com deficiência visual e a escolas, bibliotecas e associações. Se corresponde a esse perfil e ainda não se cadastrou, crie sua conta e aproveite a magia da leitura!

ATIVIDADES SENSORIAIS APROXIMAM ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL DO UNIVERSO LITERÁRIO

A literatura vai muito além das páginas de um livro. Ela afeta a mente e o espírito, estimula os sentidos e se molda a diferentes formatos e linguagens.

Foi a partir dessa percepção que a equipe da Rede de Leitura Inclusiva da Fundação Dorina Nowill para Cegos, com o apoio do SENAC Tiradentes, SENAC ACLIMAÇÃO e Museu de Arte Sacra organizaram, no dia 27 de abril, um encontro com atividades sensoriais para alunos com deficiência visual do Colégio Vicentino Padre Chico. Promovido como parte da Semana SENAC de Leitura – uma ação desenvolvida em todas as unidades do SENAC do Estado de São Paulo e que, este ano, adotou como temática “Livros que viraram filmes” -, o encontro teve como foco o livro Capitães de Areia, publicado por Jorge Amado em 1939, e adaptado para o cinema pela neta, Cecília Amado, em 2011.

Com essa proposta, a visita dos alunos começou com uma roda de conversa dedicada à obra de Amado. Em seguida, os estudantes foram conduzidos a uma sala com cerca de cinco metros quadrados, na qual um dos cenários do filme foi reconstruído para que os jovens com deficiência visual o explorassem com os demais sentidos.

“Os alunos com algum resquício visual vendaram os olhos.”, explica a pedagoga e bibliotecária do SENAC Tiradentes, Adriana Rafael Pinto. Para a educadora, a parceria com a Fundação Dorina não é novidade, estando à frente de atividades anuais de inclusão entre as instituições desde 2015. “Eles cheiraram o perfume das rosas, tocaram composições de renda em alusão à saia típica das baianas e sentiram um chão de palha debaixo dos pés.”, conta Adriana.

Para um dos estudantes do Colégio Vicentino Padre Chico, a experiência foi uma grande aventura. “A sala tinha tantos cheiros, sons e coisas pra tocar… Nunca tinha entrado em um lugar assim. Fui percebendo que tudo naquela sala fazia parte da história Capitães de Areia.”, relata.

Além da visão

A experiência dos alunos, porém, não terminou aí. Eles também visitaram o Museu de Arte Sacra, que abriga objetos religiosos de valor estético e histórico. Educador no museu há nove anos, Anderson Shimamoto foi um dos profissionais responsáveis por receber e guiar os estudantes durante o passeio. Como o acervo, que inclui pinturas, prataria e ornamentos diversos, não pode ser tocado em prol da preservação dos materiais, Shimamoto e os demais educadores descreveram as peças para os visitantes, além de situar cada uma historicamente. Não foi tudo, porém. “O museu possui maquetes e réplicas táteis de algumas peças e os alunos também puderam interagir com elas. Todos têm direito a uma experiência plena a partir das suas capacidades, é só uma questão de adaptar a proposta.”, declara Shimamoto.

Descrição de imagem: Foto de três participantes da oficina, um homem e duas mulheres, sentados em volta de uma mesa redonda acessando o Daisy no computador. Nayara está à esquerda. Ela é negra, tem cabelo liso e preto na altura dos ombros. Usa uma camisa branca, blayzer vermelho e calça jeans.

“Não sabia que existia uma lei me dando o direito de receber livros das editoras em formato acessível”

A frase é de Nayara Dionysio, 23, acerca do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que entrou em vigor no começo de 2016. Nayara tem baixa visão e soube que contava com esse direito durante a oficina A Leitura Inclusiva e o Livro Digital Acessível Daisy, promovida pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, no dia 18 de maio, na Secretaria de Educação de Araraquara.

A jovem é estudante de psicologia e estagiária no Núcleo de Atendimento a Pessoas Especiais (NAPE), em Botucatu. Ela explica que, em seu campo de atuação, é necessário ler muito e, por quase não encontrar livros de psicologia em fonte ampliada, teve de forçar a vista durante o curso. “Nasci com toxoplasmose congênita e, clinicamente falando, tenho 15% de resíduo visual em cada olho, mas, por sorte, sempre estimulei bastante esse resíduo desde a infância”, conta Nayara. Durante a oficina, a estudante testou pelo celular o aplicativo de leitura criado pela Fundação Dorina para o formato Daisy, o DDReader, e apreciou os recursos de contraste da letra e ampliação da tela oferecidos pelo programa.Descrição de imagem: Foto de Maria Helena, fundadora da Para-DV, em uma sala. Ela está em pé, atrás de uma mesa com artigos de escritório. Maria Helena é branca, tem cabelos curtos e castanhos. Usa óculos de grau e brincos pequenos, camisa azul e calça jeans.

Desta vez, a oficina contou com a parceria da Associação para o Apoio e a Integração do Deficiente Visual (Para-DV). Maria Helena, 61, é pedagoga e coordenadora administrativa da associação e atuou à frente dessa parceria, que, na verdade, representa só a página mais recente da história que a educadora tem com a Fundação Dorina.

Tudo começou com seu filho Alex, que nasceu com deficiência visual total. Na época, Maria residia na capital paulista e, após o filho completar dois anos, passou a levá-lo à Fundação Dorina para que ele se desenvolvesse apesar da cegueira. Quando Alex completou quatro anos, porém, mudaram-se para Araraquara e enfrentaram todo o despreparo que ainda existia para a inclusão de uma pessoa com deficiência visual, do ambiente escolar a tantos outros. “Foi bem difícil, mas nos adaptamos e, em setembro de 1995, com o apoio de pais, amigos e profissionais dedicados à pessoa com deficiência visual, fundamos a Para-DV”, relata Maria. Hoje, Alex, que também esteve presente à oficina, tem 27 anos, é paratleta de natação – competindo, inclusive, no exterior – e professor de Educação Física na Para-DV.

Enquanto pedagoga e mãe que acompanhou de perto a formação do filho com deficiência visual por meio dos recursos disponíveis na infância do garoto, Maria vê no DDReader um grande aliado no processo de alfabetização, complementando o que já é ensinado com o sistema Braille. “Com a possibilidade de inserção da leitura em voz humana junto ao texto acessível, fica mais fácil trabalhar os sons das letras com as crianças de um jeito interativo”, explica a educadora.Descrição de imagem: Foto de uma sala com aproximadamente dez pessoas. Todas estão sentadas em cadeiras espalhadas no espaço e utilizam o Daisy pelo celular.

Acesso à leitura

Além do direito de solicitar livros em formato acessível às editoras, como prevê a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), as pessoas com deficiência visual podem contar com projetos como o Leitura Digital Acessível para o acesso à novos títulos. A iniciativa prevê a entrega de kits com 12 títulos a mil instituições do estado de São Paulo – entre escolas, bibliotecas e associações. A boa notícia é que os 12 títulos já estão disponíveis, na íntegra, no portal de livros da Fundação Dorina, o Dorinateca. Trata-se de um espaço voltado exclusivamente a pessoas com deficiência visual e a instituições como as contempladas pelo projeto. Se corresponde ao perfil e ainda não tem seu cadastro, crie uma conta e aproveite a leitura!

Descrição de imagem: Foto de uma sala ampla com grupos de cinco pessoas separados em cinco rodas. Elas conversam entre si e algumas fazem anotações. Ao fundo, há uma parede verde com uma televisão, que mostra um slide branco com uma faixa azul, na qual se lê, em letras brancas: “Rede Nacional de Leitura Inclusiva”.

FORMATO DE LEITURA ACESSÍVEL INSPIRA PROFESSOR DE MÚSICA

“O Braille ainda é um sistema de escrita e leitura tátil indispensável à alfabetização das crianças cegas, mas o livro digital representa um grande avanço às pessoas com deficiência visual”. É este o parecer da diretora da Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (ADEVIRP), Marlene Cintra, acerca do programa de leitura acessível DDReader, desenvolvido e apresentado pela Fundação Dorina na oficina A Leitura Inclusiva e o Livro Digital Acessível Daisy, sediada pela própria ADEVIRP no dia 19 de abril.

Cega desde o berço, Marlene nasceu em um sítio do município paulista de Pedregulho, em 1958. Quando a menina tinha nove anos de idade, os pais mudaram-se com ela e com as duas irmãs caçulas, também cegas, para a cidade de Franca, pois ouviram falar que lá as filhas poderiam aprender a ler e a escrever. Foi assim que Marlene se alfabetizou no sistema Braille e acabou se tornando educadora de crianças cegas.

Ela conta que, em 1980, enquanto lecionava e cursava psicologia em Lorena, no Vale do Paraíba, frequentava esporadicamente a Fundação Dorina, inclusive para adquirir materiais pedagógicos, e se encontrava com a sua fundadora. “Sempre admirei a dona Dorina. Na época, eu era jovem e achava ela um pouco rígida, mas depois que fundei e assumi a ADEVIRP, em 1998, percebi que foi graças àquele pulso firme e àquela determinação que a Fundação chegou aonde chegou e eventos como essa oficina são um reflexo disso”, declara Marlene.Descrição de imagem: Foto de Marlene Cintra, da Adevirp, em frente a uma parede verde com uma televisão desligada. Marlene está em pé e fala em um microfone. Ela usa camisa de manga longa azul com o logo da Adevirp. Ao fundo, há uma mesa com uma caixa pequena, que contém os livros digitais em Daisy do projeto Leitura Digital Acessível.

As possibilidades da leitura digital também empolgam o professor da ADEVIRP Alexandre Mazzer, 33. Graduado em música pela Universidade de São Paulo (USP), Mazzer teve estimulada a vocação para os ritmos desde pequeno. Segundo ele, os pais adoravam música e seu passatempo era com instrumentos de brinquedo. “Quando tinha oito ou nove anos, frequentava a igreja com minha avó e gostava de ouvir o coral”, lembra o professor.

Para Mazzer, ensinar música a pessoas com deficiência visual é uma constante troca de conhecimentos. “Ensino e aprendo com eles ao mesmo tempo. Acompanhar a evolução do aluno é algo que salário algum pode pagar”, afirma o docente. Além de elogiar o material de música do projeto Coleção Regionais, o professor observou o potencial lúdico do formato Daisy para suas aulas: “Gravo trechos das músicas para os alunos estudarem, mas o Daisy permite a criação de um material bem mais interativo, já que podemos combinar texto acessível com música em um mesmo ambiente”, explica Mazzzer.

Além da oficina

A você que é uma pessoa com deficiência visual ou instituição que promove o acesso gratuito desta à leitura – escola, biblioteca, associação etc – e não pôde acompanhar uma das oficinas do projeto Leitura Digital Acessível, temos uma boa notícia! Os 12 títulos do kit destinado a mil instituições do estado de São Paulo, todos no formato Daisy, estão disponíveis no portal de livros da Fundação Dorina, o Dorinateca. Então, se você faz parte desses grupos e ainda não tem seu cadastro, crie uma conta e boa leitura!