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Sobre damaris

No final de 1972 e inicio de 1973 minha história se iniciou bem tumultuada ... Sou a segunda filha de um casal com incompatibilidade sanguínea e os médicos naquela época foram categóricos ao afirmar aos meus pais que eles teriam um bebê deficiente. Imagine há quase 45 anos atrás saber que seu filho será deficiente, que será apontado como o “mongolóide”, que não terá acesso à escola, que ficará a margem da sociedade. Pois foi assim que cheguei ao mundo. No dia 22 de fevereiro de 1973, na cidade de Santo André, cheguei para mostrar que Deus tem planos nas vidas de seus filhos. Não nasci com deficiência, mas trouxe dentro de mim um amor incondicional aos meus irmãos deficientes. Demorei 30 anos para ouvir meu coração e, antes disso, trabalhei em inúmeros empregos na área administrativa, cursei Jornalismo, trabalhei na área, me casei, tive uma filha, mas acordava todos os dias com a sensação que não era feliz. Um dia, resolvi que precisava ouvir meu coração e, fiz vestibular para Pedagogia e, logo após, fui pedir estágio na APAE da minha cidade. Foi à partir desse dia que descobri o que é acordar com vontade de trabalhar, de estudar, de se doar e sentir-se completa. Cursei 7 pós graduação, Libras e inúmeros cursos de especialização (o que aliás nunca fico sem buscar), mas o mais importante foi aprender a ouvir minha intuição, a observar, a não ter medo, a errar e acertar, a respeitar, a investir no que acredito, a defender minhas ideias e principalmente a compartilhar... E é para isso que estou aqui, para compartilhar minhas experiências, meus materiais, meus acertos e meus erros. Um dia me perguntaram como consigo trabalhar com tantas deficiências diferentes, com tantas crianças diferentes (com comprometimento desde o leve até severo), e eu só tenho uma resposta para isso: Exercito minha EMPATIA em todos os momentos, pois só podemos ajudar nossas crianças, quando nos colocamos no lugar deles. Essa sou eu, Damaris Pegoraro, especialista em Deficiência Intelectual, Auditiva, Visual, TEA, Ludopedagogia e Psicomotricidade que desenvolve seus próprios materiais, que chora escondido quando se sente incapaz, mas que principalmente ama a oportunidade que Deus me deu em aprender a cada dia para ajudar quem entra em minha vida.

Livros acessiveis: uma realidade na inclusão

Por Damaris Pegoraro

É praticamente unanimidade entre os educadores e pesquisadores que, desde os primeiros anos de vida, criar o hábito da leitura na criança impacta no seu desenvolvimento de maneira tão significativa que a levará a adquirir uma bagagem cultural que vai acompanhá-la pelo resto da vida.
A leitura promove o desenvolvimento, apura o senso crítico, proporciona entretenimento, amplia o conhecimento, enriquece o vocabulário, aprimora a escrita, minimiza dificuldades acadêmicas, desenvolve o afeto, ajuda no desenvolvimento da linguagem, desenvolve a criatividade, promove a descoberta do mundo imaginário, ajuda a lidar com questões de forma ética e com as emoções. Enfim, é uma forma de interação com o ambiente do qual estamos inseridos assim como nossa compreensão do mundo.
Ainda hoje percebemos que, para as pessoas com deficiência, o direito de livre escolha de leitura é muito restrito e, quando estão disponíveis, são materiais apresentados muito diferentes dos demais.
Imagine uma sala de aula inclusiva, onde encontramos crianças sem deficiência ou dificuldade de aprendizagem e, encontramos crianças com deficiência intelectual, física, com baixa visão, cegas, surdas, autistas, entre muitas outras deficiências, quantos tipos de livros precisamos para trabalhar o mesmo conteúdo com todos?
O professor, diante desta situação, procura materiais adaptados para atender todos os alunos, seja livro em braile, fonte ampliada, com ilustrações, áudio livros… Enfim, precisa de vários materiais diferentes para atender essas crianças. É nesse contexto que quero falar sobre livro acessível.
O livro acessível é diferente do livro adaptado, pois com o mesmo material é possível atender a necessidade de todos os alunos.
Um livro acessível pode ser utilizado pela criança cega ou com baixa visão, assim como pela família, pelo surdo, pelo autista, pelo deficiente intelectual, pelos colegas de sala e pelo professor. Esse livro é impresso em braille, mas em tinta também e com fonte ampliada, o que possibilita que a criança cega leia, assim como a criança com baixa visão, mas as pessoas que não possuem deficiência visual também podem ler.
É um material feito para que todos leiam juntos. Além da edição em papel, acompanha um CD com as audiodescrições das imagens e um audiobook, para quem quiser ouvir o livro narrado. Quanto às imagens, o livro acessível preza pela ludicidade, onde essas imagens são grandes e coloridas possibilitando que a criança com baixa visão também tenha acesso às ilustrações e possuem os traços, dessas imagens, em alto relevo para que o cego leia a imagem.
Eu acredito que Incluir é minimizar as diferenças e tornar o dia a dia de todos dentro da mesma realidade, sem esquecer que há sim a necessidade de adaptações, mas que devemos priorizar a igualdade e os direitos de todos e, com o livro acessível a criança não fica excluída dentro da sala de aula e nem dentro da família.


Os benefícios desse tipo de material não é exclusivo da criança com deficiência, pois quando todos tem acesso a outros meios de leitura há ampliação de conhecimento e promoção ao respeito às diferenças.
Precisamos pensar na inclusão como uma realidade e oferecer às nossas crianças, meios que as aproximem dos demais.
Antes de qualquer planejamento, precisamos nos colocar no lugar do outro, para compreender o quanto ainda temos que avançar para que se torne natural respeitar o direito de todos. Esse é o segredo para a verdadeira inclusão.


Todos os livros mostrados nesta publicação foram fornecidos pela FUNDAÇÃO DORINA NOWILL, que tem um trabalho lindíssimo desde de 1946 e, que eu tive a sorte conhecer e ter acesso a estes materiais que hoje fazem parte do meu dia-a-dia.